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[Tubo de Ensaio - Officium Laboratório de Jornalismo ]

05/19/2003

Para uma Feira Hippie melhor


Em parceria com a Prefeitura de Belo Horizonte (PBH), professores e alunos do curso de Geografia da UFMG desenvolveram um projeto voltado para o planejamento e estruturação da Feira Hippie, localizada na Avenida Afonso Pena, no centro da cidade, que ocorre todos os domingos pela manhã.

O projeto, realizado de dezembro de 2002 a janeiro de 2003, foi coordenado pelos professores Alexandre Magno Alves Diniz e Ralfo Edmundo Matos, contando com o apoio de oito estudantes. O objetivo foi traçar o perfil dos feirantes e conhecer a percepção que eles têm da infra-estrutura da feira. Os resultados servirão de base para futuras intervenções da prefeitura, com o intuito de possibilitar uma melhor gestão da feira.

Foram entrevistados, por telefone, 360 expositores cadastrados, escolhidos aleatoriamente, de forma proporcional a cada setor. Os feirantes, considerados pela PBH os maiores beneficiados pelo estudo, foram sensibilizados por funcionários da prefeitura em relação às entrevistas de que seriam alvo. Os resultados basearam-se nas dificuldades dos feirantes e nas vantagens e desvantagens oferecidas aos consumidores. De acordo com os resultados do estudo, as principais dificuldades relacionam-se à aquisição de matérias- primas, concorrência com outros artesãos, infra-estrutura - espaço da feira, escassez de sanitários, difícil armazenamento das mercadorias - e segurança, no que se refere a pequenos furtos. As vantagens referem-se aos baixos preços, alta variedade e qualidade dos produtos e lazer. As principais desvantagens constam da falta de conforto, segurança e garantia dos produtos.

O expositor de bolsas Washington Luiz da Conceição, que notou certa melhora no policiamento, considera a falta de segurança um problema recorrente em qualquer local público. Ele sugere uma assistência da prefeitura, em parceria com o Banco Central, na criação de uma Central de Informações relativas às possibilidades de crédito dos consumidores, para se evitar prejuízos. Outro problema, segundo o vendedor de tortas Sérgio Teixeira Pinto, é a burocracia por parte da prefeitura, cujos funcionários regulam constantemente a temperatura dos recipientes dos alimentos. Outra exigência é a retirada de parte do toldo que protege a barraca, diminuindo sua proteção e prejudicando o comércio em dias chuvosos. O confeccionador de cabides Deosdeti Tarantin, há 15 anos na feira, reclama da proibição de vender produtos novos, não anunciados quando da aquisição da licença. Deosdeti criou um suporte de garrafas para mesa, mas não pode comercializá-lo por causa da proibição.

O projeto trouxe benefícios para as várias partes envolvidas. Para o professor Alexandre Diniz, "do ponto de vista institucional, representa forjar uma aliança com o poder público; e do ponto de vista do tema, revelar aspectos da geografia da cidade". O professor destaca a importância da feira, que se configura como fomentadora de empregos, sem despesas com aluguel ou impostos. Para os estudantes, ainda segundo Alexandre Magno, é a oportunidade de aprender sobre metodologia de pesquisa e técnicas de análise de dados.

A feira e seus personagens

No final da década de 60, a Praça da Liberdade, no centro de Belo Horizonte, assistiu ao surgimento de um mercado informal destinado à exposição e comercialização de produtos artesanais. Era a chamada "Feira Hippie". A feira, porém, cresceu, fazendo com que a prefeitura sentisse a necessidade de intervir em sua organização, cadastrando os feirantes. Assim, o que começou como iniciativa de certos grupos ligados à arte, tornou-se uma responsabilidade da prefeitura. No final da década de 70, a Feira Hippie sofreu um inchaço e desconfiguração de seu objetivo, devido à introdução de produtos industrializados. Além disso, o patrimônio histórico da cidade estava sofrendo sérios danos.

A Praça da Liberdade já não comportava mais a feira. Assim, em 1991, a Avenida Afonso Pena, entre as ruas Bahia e Guajajaras, passou a ser o local de trabalho de 3.000 feirantes, devidamente cadastrados. As barracas sofreram uma padronização de tamanho, sendo divididas por setores. Os expositores pagam uma taxa mensal à prefeitura, cujo valor mínimo é de R$19,07 para as barracas de 1,5m x 1,5m. A feira conta, ainda, com a prestação de serviços da Rádio Feira, que informa sobre achados e perdidos, o tráfego da cidade e eventos culturais.

Para feirantes e frequentadores, é inquestionável o valor cultural da Feira Hippie. Para o produtor de tapetes Antônio José de Abreu, feirante há 8 anos, a feira é um ponto de referência para a cidade, formando com o Parque Municipal e o Mineirão os principais pontos turísticos de BH. Sandra Regina Ramos, que confecciona bijuterias, defende que a feira não pode acabar nunca e que é o espaço para "mostrar o nosso trabalho, a importância da nossa profissão", afirma. Além disso, trata-se de um local de relacionamentos, pois como ressalta a artesã Maria da Conceição, "mesmo se não vender nada, pelo menos a gente sai de casa e encontra o pessoal amigo". Não só para quem vende, mas também para quem compra, pois segundo Catarina Araújo, 76, que vai à feira todos os domingos, "para quem é idoso, é uma terapia". Gláucia Cristina araújo,22, assim como muitos freqüentadores, reclama da segurança, mas destaca a possibilidade de encontrar coisas diferentes a baixos preços.


Márcia Regina



05/19/2003 a 06/26/2003. Este Mural é de responsabilidade de:
Elton Antunes - Officium Laboratório de Jornalismo - eantunes@fafich.ufmg.br